"Sou uma mulher madura que às vezes anda de balanço
Sou uma criança insegura que às vezes usa salto alto
Sou uma mulher que balança, sou uma criança que atura."
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quinta-feira, 28 de maio de 2009

Os fins justificam...

O início da catástrofe. Professor de história, cético por natureza, temparamental. Ninguém podia negar, porém, que ele tinha coragem. Nunca se importou com as ameaças, sempre tão comuns nas escolas públicas do Brasil, e continuou dando as suas aulas com afinco - apesar de tudo, ele ensinava muito bem, sempre com exemplos práticos a atividades lúdicas.
- Livros abertos na página 159. Sobre a mesa. Agora.
Nunca fora dos mais gentis, mas no fundo os alunos sabiam que o jeito grosso era só para manter o respeito. Eles sabiam que se ele não o fizesse acabaria perdendo o controle da sala de aula e ficando à mercê dos próprios estudantes, sempre tão cheios de direitos e com os deveres tão vazios. Sim, eles sabiam. No entanto, nem todos compreendiam de fato.
O primeiro tempo seguiu como de costume. A aula era destinada aos pensadores absolutistas e ele, como um bom professor, fez questão de enfatizar cada teoria com exemplos do cotidiano. Embora não concordasse por completo, gostava de Maquiavel e admirava o seu posicionamento.
- Maquiavel dizia que os fins justificam os meios. - Ele disse a classe. - Para ele o importante era alcançar o objetivo em questão, independente dos meios utilizados para chegar até o mesmo. A verdade é que, em um mundo como o que nós vivemos hoje, as coisas têm que funcionar assim, de fato.
E assim o tempo foi passando. Uns prestando atenção, outros nem tanto. Todavia, no segundo tempo as coisas saíram do ritmo comum. Os ânimos se exaltaram no fundo da sala e um dos alunos acabou sendo expulso injustamente. Logo ele, que tinha prestado tanta atenção, nas teorias, em Maquiavel...


(...)


O professor chegou ao estacionamento deserto e foi direto à vaga que costumava ocupar. Contudo, ele não chegou a entrar no carro.
- Respeito e justiça são fins dignos, professor? - A voz do aluno injustiçado (e agora revoltado) fez-se audível, fazendo com que o historiador se virasse e encarasse os fatos.
Silêncio.
- Já que o senhor não responde, deixe que eu o faça: os fins justificam os meios e também justificarão o seu fim.
Pela primeira vez na vida o historiador já não concordava com aquela história. Um disparo. Pela primeira vez na vida o historiador viu a sua história ter um fim. O fim.

Pauta para o Blorkutando: "Os fins justificam os meios".
Nossa, finalmente a minha vida escolar tá mais calma. Voltarei a postar com frequência e tô indo responder os comentários das três últimas postagens. *-*
Falando em calma, sua ligação me acalmou e me deixou muito feliz, Love. Nem acreditei quando disseram que "a Joyci" queria falar comigo. Amo, amo, amo muito.
Beijos, beijos. :*

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Gêmeas bivitelinas

Lembro-me da minha infância e das incontáveis horas que passei vidrada na TV e nos seus inúmeros desenhos animados. Adorava "O Fantástico Mundo de Bob" e "Doug", mas eram naquelas animações com as típicas temáticas de luta entre o bem e o mal que eu procurava pelos personagens que viria a transformar nas minhas heroínas ou nos meus heróis prediletos.
Contudo, devo admitir que não era fácil encontrar um herói à altura, não. Era uma tarefa árdua, que me fazia perder horas em horas em um difícil e duradouro processo de seleção. Como nunca encontrava um personagem que atendesse a todos os requisitos, então acabava diminuindo as exigências e ficando com as opções meia boca.
A verdade é que o meu lado feminista buscava por uma mulher ousada, forte e destemida. Uma heroína que não tivesse medo de ser feliz nem da opinião de terceiros, que conseguisse carregar nas costas o maior dentre todos os pesos só para salvar o mundo e as pessoas ao seu redor e ainda achasse tempo e disposição para resolver os próprios problemas. Queria alguém com os poderes mais extraordinários e, ao mesmo tempo, com as características mais ordinárias: amor, impaciência, carinho, generosidade, estresse... Enfim, queria que qualidades e defeitos nas proporções perfeitas reagissem e, como em uma reação química, resultassem em alguém que poderia admirar e dizer: "Nossa, ela é minha heroína".
Hoje sei que todo o tempo que gastei em frente a TV em nada adiantou. Acabei encontrando a heroína com todas as qualidades e defeitos que procurava aqui, dentro de casa: minha gêmea bivitelina, minha gêmea fraterna.
Como não poderia deixar de ser, nascemos no mesmo dia: uma grande e uma pequena, uma mais velha e uma mais nova, uma forte e uma frágil, uma heroína e uma admiradora, um adulto e um bebê, uma mãe e uma filha. Tão diferentes e tão iguais. Ah, como eu lamento ter levado tanto tempo para descobrir que tudo eu sempre quis ser, tudo que existe de mais extraordinário no mundo, mora no quarto ao lado.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O grande encontro



Ela já estava acordada e começava a se aprontar para a sua primeira sessão de fotos, pois, por pura sorte, havia conseguido um convite para trabalhar como modelo fotográfica após ter sido descoberta por um olheiro enquanto comprava pão. No apartamento vizinho, porém, ele havia acabado de acordar e estava atrasado para a primeira entrevista de emprego decente que havia conseguido em toda a sua vida.
Ela gastou meia hora em um relaxante banho quente, cantarolando e sorrindo cada vez que pensava em como a sua vida estava maravilhosa ultimamente - aquele trevo de quatro folhas estava mesmo lhe dando sorte! Ele, contudo, fez a tardia descoberta de que a resistência do chuveiro elétrico estava queimada e acabou tomando banho frio em uma das manhãs mais geladas do ano. Definitivamente, hoje não era seu dia de sorte.
Ela sabia que ainda tinha tempo de sobra e poderia esperar mais duas ou três horas antes de sair de casa, mas preferiu adiantar-se e usufruir do prazeroso ócio que seria aguardar por um fotógrafo profissional. Que sorte a dela! Ele, entretanto, não tinha outra opção a não ser sair já e correr - correr muito - para, quem sabe, chegar a tempo. Que azar o dele!
Ele e ela, o azarado e a sortuda, o azar e a sorte. Não demorou muito e o encontro aconteceu ainda no elevador. Cara a cara, eles se encararam, se desmascararam e só então se compreenderam: eram duas faces da mesma moeda, eram duas metades que formavam um inteiro, eram dois extremos da vida.
(...)
Nunca descobriram se foi o azar dele ou a sorte dela que fez com que os dois ficassem presos naquele elevador e acabassem perdendo os seus respectivos compromissos. O fato é que saíram de lá de mãos dadas e assim seguiram por toda a vida: foi preciso que ficassem lado a lado para que descobrissem que nunca estiveram separados.
Hoje ela está desempregada e ele é dono de uma grande empresa. Amanhã, porém, o mundo vai girar e, só talvez, as coisas mudem.

Sorte: pseudônimo de esforço; azar: pseudônimo de preguiça; sorte e azar: dois estados passageiros de uma vida mais passageira ainda.

Pauta para o Blorkutando: Sorte - você acredita?

segunda-feira, 20 de abril de 2009

A vida é tão rara

"Aproveite bem, o máximo que puder, o poder e a beleza da juventude." (Pedro Bial)


O ser humano é mesmo uma espécie extremamente complexa. Enquanto os animais correm assim que sentem o cheiro do inimigo, os homens insistem em apanhar e sentir na pele a dor do ceticismo, sempre esperando por dados cientificamente comprovados que nunca chegarão. Tudo isso para entender lições tão simples como as que vida tem a ensinar. Eu mesma, como não poderia ser diferente, já dei por várias vezes a cara à tapa, o dedo à corte, a pele à queimadura... Mas valeu a pena. Não coloco mais o dedo naqueles dois buraquinhos da tomada que pareciam tão amigáveis anatomicamente.
E assim a vida segue e faz de alguns mestres que reconhecem que não sabem de nada e de outros eternos aprendizes que acham que já sabem tudo. Enquanto os mestres saem às ruas, reunem os amigos e fazem da juventude uma verdadeira festança, os aprendizes esperam pelas fotos do encontro que ilustrarão as paredes da memória. Até que acontece uma coisa chamada trabalho. Ele vem e quando você se dá conta já é tarde demais. Cadê o tempo que estava aqui? A vida comeu. Cadê aquela foto que estava aqui? Continua no mesmo lugar, mas a vida tratou de esfregá-la na cara de quem resolveu deixar o tempo passar sem sequer se despentear.
Então os aprendizes se olham no espelho e se espantam com as terríveis marcas de um passado mal vivido. De onde saíram tantas rugas? - eles pensam. Saíram das noites em que preferiu dormir à sair para dançar, das tardes em que optou por assistir TV à jogar futebol na chuva, das manhãs que passou resmungando e nem sequer notou o quanto o céu é lindo - e é seu, ou pelo menos era - e de todos os dias em que prefiriu levar uma vidinha mais ou menos à ser levado por ela bem no meio do seu epicentro.
Mas agora, caro aprendiz, já é tarde demais para se tornar um mestre.


Curta, dance, quebre, mexa, brinque, viva.






Pauta para o Blorkutando. Amei, diga-se de passagem. *-*