"Sou uma mulher madura que às vezes anda de balanço
Sou uma criança insegura que às vezes usa salto alto
Sou uma mulher que balança, sou uma criança que atura."
Mostrando postagens com marcador Sonhos e Corujas Perdidas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sonhos e Corujas Perdidas. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Achados e Perdidos


A grande lona colorida havia sido armada cuidadosamente dias antes da grande estreia por aqueles que ali trabalhavam. O local, antes vazio e sem brilho, começava a ganhar vida com as crianças que corriam alegres acompanhadas pelos seus pais. Enquanto as arquibancadas do circo começavam a encher, do lado de fora uma jovem moça anunciava o espetáculo e gesticulava com empolgação para a bilheteria:
- Venham, venham todos! Só aqui no nosso circo terão a oportunidade de conhecer o melhor e mais poderoso mágico da história da humanidade! Comprem já os seus bilhetes!
Não demorou muito para que os ingressos esgotassem e o público se acomodasse nas poltronas. Percebendo a excitação que pairava pelo ar, o apresentador, um homem robusto e vestido elegantemente em um terno bem recortado, iniciou o espetáculo.
- Respeitável público, é com um enorme prazer que o Circo da Vida apresenta-lhes o melhor e mais poderoso mágico da história da humanidade. O único capaz de transformar cada um de vocês! Vamos aplaudi-lo!
A tenda se encheu com a ovação da platéia que só se calou quando o formidável mágico tomou o seu lugar no picadeiro. Era um senhor de idade marcado por rugas e que trajava uma roupa simples e absolutamente comum. Tinha uma postura péssima, como se carregasse um peso de muitos e muitos anos de experiência nas costas – de fato o fazia - e, no lugar dos tradicionais coelhos, varinhas e cartolas, trazia consigo um grande relógio de bolso.
Um burburinho de desaprovação fez-se audível e logo já era possível identificar perguntas como “cadê a cartola?” e comentários cheios de ceticismo – “isso é uma grande piada...”. O senhor, por sua vez, mais sábio do que qualquer outro mortal presente no local, pouco se importou. O murmúrio continuou crescendo até que uma criancinha, no auge da sua inocência, disse em voz alta:
- Eu não vou mudar nunca. Ninguém é capaz de me transformar!
- Oh, minha pobre garotinha, sinto-lhe informar, mas vai sim. – Iniciou o mágico e a sua voz serena e cheia de sabedoria tomou a atenção de todos. - Sabe esse teu sonho de construir uma casinha na árvore do sítio da família? Pois é, você nem lembrará dele daqui a 15 anos.
- Nunca! A casinha da árvore é tudo o que eu mais quero, senhor mágico.
- Eu sei, eu sei. Em breve, o quero terá virado queria, jovem. E sabe esse teu sonho de mudar o mundo e de nunca ser como os adultos, sempre ocupados demais para dar valor àquelas coisas que realmente merecem ser valorizadas? Pois é. Você também esquecerá disso daqui a uma ou duas décadas e acabará se rendendo à uma rotina estressante. O que você acha certo hoje, e devo admitir que realmente é, acabará se tornando o desperdício de tempo de amanhã. A vida é assim, pequena menina. E todos aqui sabem disso...
O mágico fez uma breve pausa e continuou depois de ter recuperado o fôlego.
- Suas prioridades e princípios acabarão mudando e os seus sonhos se perderão no caminho em direção a um mundo onde sonhar não é mais permitido. E, acredite, sou quem vou realizar cada uma dessas transformações. Apenas dê tempo ao Tempo.
Quando o homem terminou de falar, homens e mulheres aplaudiram-no de pé. Eles já tinham vivido o bastante para saber que o mágico estava certo. As crianças, porém, continuaram sentadas, digerindo em vão aquelas palavras que até então não tinham sentido algum.

(...)


O colorido da lona, agora desbotada, havia se perdido durante os quase vinte anos, mas parecia que ainda ontem ela estivera ali com os seus pais para assistir ao espetáculo inaugural do melhor circo que conhecera. A imagem do vestido rosa, do sapatinho boneca e das fitinhas coloridas que enfeitavam o seu cabelo na ocasião ainda estavam incrivelmente nítidas em sua memória. O sonho da casinha na árvore, porém, não.
A mulher checou o relógio de pulso. Tinha pouco tempo e logo teria que voltar à vida adulta. Desde quando ela começara a se importar com isso? Desde quando o trabalho se tornara mais importante do que a magia de um bom circo? Olhou para um lado e depois para o outro vasculhando e absorvendo cada detalhe da paisagem. Não demorou muito para que encontrasse o que estava procurando: em uma placa de madeira podia-se ler, ainda que com um pouco de dificuldade, a inscrição “Achados e Perdidos” e a seta que apontava para uma cabana singela. Empurrou com um pouco de dificuldade a porta de madeira e logo pôde ter uma imagem quase completa do senhor que descansava em uma cadeira de balanço por detrás do balcão.
- Olá. Estou à procura de algo que perdi há algum tempo.
- Quanto tempo? - o senhor respondeu, despertando do seu transe momentâneo.
- Bom, acho que já faz quase vinte anos.
- Sinto muito, senhora. Limpamos as nossas estantes a cada década. Lamento.
Cabisbaixa, a mulher agradeceu e deixou o local. Só agora ela podia compreender todo o poder e sabedoria daquele velho mágico que, se não lhe falhava a memória, chamava-se Tempo. Mas agora era tarde demais para recuperar os sonhos que havia perdido pela vida a fora.

•••

Ficou maior do que deveria, né? E olhe que eu ainda cortei o malabarista, o palhaço e mais alguns personagens... Enfim, só espero que não tenha ficado cansativo demais.

sábado, 28 de março de 2009

Sobre feitiços, corujas e sonhos que se perderam

Contos de fadas, de bruxas, de príncipes, de princesas. Contos. Sempre presentes durante a minha infância, só agora percebi a falta que eles fazem e as lições que passaram despercebidas quando criança. Hoje entendo o quanto eles têm a nos ensinar, a começar pela simplicidade que só quem escreve para os ingênuos que apenas se preocupam com a essência, deixando de lado o vocabulário cheio de pretensões, tem a nos oferecer.
Devo admitir que há tempo não parava para ler algo assim, mas foi justamente um conto simples sobre bruxas e uma fonte da sorte que me trouxe de volta a um mundo encantado e cheio de ensinamentos. Lembrei do primeiro livro com mais de cem páginas que li, Harry Potter e a Pedra Filosofal. Lembrei da espera pelos volumes que dariam continuidade ao primeiro, lembrei dos sonhos que tinha com a carta chegando e das desculpas que inventava para justificar o seu atraso - Ah, vai ver a carta ainda não chegou porque as corujas não estão acostumadas com o clima quente, pô...
Que saudade que eu sinto de quando eu simplesmente acreditava em um mundo perfeito. Pouco me importava o que era ou deixava de ser racional. Quem ligava para a tal da lógica, afinal? Eu não! Eu só ligava para os sonhos, para as fantasias e para os feitiços que era capaz de realizar com a varinha feita com a madeira do salgueiro mais nobre e com a pena da fênix mais bonita - ou com o galhinho da árvore do prédio pintado de preto e coberto com fita isolante na parte inferior. Hoje, a única coisa que o meu Accio atrai são os comentários daqueles que já esqueceram o que é ser criança...
Sei que não é, nem de longe, o melhor livro do mundo, mas foi o menino Potter que me viu crescer e me apresentou a um mundo tão mágico quanto aquele onde ele vivia: o da leitura. Só então pude compreender que, como diria Stela Maris, uma livraria nos livraria de uma vidinha insossa. E são por esses e outros motivos que eu luto para manter acesa a chama da infância que existe bem lá no fundo do peito de uma adolescente que tem que se preocupar com todas as exigências desse mundo globalizado que só se preocupa, como diriam os Engenheiros do Hawaii, com um dia super, uma noite super, uma vida superficial.
Saudade do tempo que se foi e que não volta mais. Saudade.





Quanto a lição que o conto me ensinou, bom, aí já é assunto para outro post...