"Sou uma mulher madura que às vezes anda de balanço
Sou uma criança insegura que às vezes usa salto alto
Sou uma mulher que balança, sou uma criança que atura."
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domingo, 21 de março de 2010

"O tempo da cura tornou a tristeza normal"

— Cadê você? Por que foges de mim desse jeito? - Perguntou desesperada.

A urgência fazia-se presente em cada detalhe sórdido que a voz da garota deixava transparecer. A resposta, porém, foi cruel e irredutível: não veio. Bem lá no fundo ela sabia desde o começo que não viria. A Inspiração havia, sim, deixado-a - e, pelo menos por enquanto, parecia ser algo definitivo.

Deixou-se perder, então, nos seus devaneios. Por que estava assim, afinal? Por que as Palavras já não obedeciam aos seus comandos e resistiam a decorar o papel? Desta vez, no entanto, obteve uma resposta de si mesmo. O seu íntimo sabia exatamente o porquê da falta de Inspiração.

A verdade é que faltava-lhe o amor e, ao contrário do que acontecia antes, a força do hábito havia lhe cruzado os braços. A ferida, que antes doía e dava margem às ilusões, coagulara. A marca, contudo, permanecera - e incomodava sempre que a Falta refletia no espelho.

***

Já que não escrevo por falta de inspiração, que o faça, então, por excesso de disciplina. A partir de hoje vai ser assim, na base da ditadura: ou escrevo ou escrevo, e se uma terceira opção ameaçar aparecer, mato na base da borracha.

***

Ando devendo resposta aos comentários, né? É tempo. Respondo ainda essa semana, quando voltarei para postar algo novo.
Aliás, falando em algo novo, tô querendo mudar o nome do blog. Queria um nome que permitisse mudanças e não limitasse o estilo. Pensei em usar o meu nome (que, pelo menos para quem me conhece, deve ser sinônimo de instabilidade), mas ando cheia de xarás na Blogosfera. Alguém tem alguma sugestão de sobrenome? Preciso me batizar. haha

domingo, 9 de agosto de 2009

Confissões, contestações e cafonices

Ainda ontem me perguntaram como você conseguiu me conquistar e fazer o tal encanto durar por mais de uma semana. “Faz tanto tempo que eu já nem lembro mais”, eu disse numa tentativa de parecer indiferente ao assunto. Eu estava mentindo, é claro: eu ainda lembro o que você fez pra me deixar à beira do derretimento total, mas é que lembrar as suas conquistas e anunciá-las em voz alta é perigoso demais para alguém como eu, que vive tentando enterrá-las só para esquecer que desde então ninguém conseguiu ir tão longe como você foi.
A verdade é que tudo que você fez foi me conquistar nos detalhes e, principalmente, nas contestações. Sim, você me contrariou até o último segundo da nossa vida. Não que estejamos mortos, é óbvio, mas é que uma vida nossa, de fato, já não existe mais – e pode acrescentar essa contestação à sua lista, afinal eu não desejei que acabasse assim, tão prematuramente.
A questão é que você me contrariava com uma freqüência que beirava o sempre, a começar pelo futebol. Você falava mal do meu time – que ainda está na segundona graças às suas pragas – e torcia justamente para aquele que eu mais odiava. Ou talvez nem odiasse tanto assim. Quero dizer, o que eu odiava mesmo era não ser contrariada, o que, consequentemente, me levava a odiá-lo só para pegar o atalho mais rápido até as contestações, que podiam ser feitas por ambas as partes nesse caso.
Você também rebatia as minhas piadas sem graça. Arqueava a sobrancelha e as declarava como “infames”, embora eu pudesse ver o rasgo de boca que lutava para não virar um riso discreto, quase que abafado. E como eu poderia esquecer das suas piadas? Você vivia fazendo-as – e olhe que elas eram quase tão deploráveis quanto as minhas – e achando um jeito de me contrariar mais uma vez, novamente, de novo: apesar de eu não achar a mínima graça nelas, você sempre arranjava um jeito de me fazer rir no instante seguinte só para não sair por baixo (não que me fazer rir fosse difícil, de qualquer forma, o que tornava tudo aquilo ainda mais desonesto).
Você criticava igualmente os meus trocadilhos, coisa que mais ninguém se atrevia a fazer. Aí, quando eu arregaçava as mangas, montava a base e me preparava para brigar até te convencer do quanto eles eram formidáveis, você ia lá e elogiava a minha inteligência e o meu humor sagaz/levemente temperado com pimenta. Tudo pra me contrariar, é claro. E eu, sempre boba, mesmo sabendo que os elogios eram de mentirinha, deixava. Abaixava os braços e esquecia os golpes de boxes (mal) aprendidos no colégio e na academia.
Além disso, você me deixava a vontade para fazer charme, teatrinho e doce (inclusive o doce de verdade, que eu comia sem ouvir nenhuma palavra que passasse perto de “engordar”), o que eu adorava. Sempre amei colocar todo o meu drama em ação, disparar dez ou vinte hipérboles e puder ter a certeza de que as minhas brincadeiras de interpretar durante a infância tinham valido a pena. Apesar disso, amava ainda mais ter que admitir que você sabia interpretar e fazer ceninha ainda melhor do que eu – o que acontecia logo depois da minha performance, só para me contrariar.
Você reconhecia quando eu estava de TPM e, apesar do medo de ser ignorado ou receber meia dúzia de palavrões e patadas, enchia a minha paciência até o limite máximo antes da explosão. Já disse que era tudo só pra contrariar? Pois é, era. Cada palavra, cada “não, eu discordo”, cada aborrecimentozinho. Tudo só pra me contrariar.
Outra coisa que você sabia reconhecer eram aqueles momentos em que tudo o que eu queria era um abraço apertado. E aí você me abraçava forte, me fazia um denguinho, sussurrava Não vá embora ou I’ll love you ‘till the end no meu ouvido e terminava os mimos com um “adivinha?” (coisa que nunca fez tanto sentido para alguém como fazia para a gente). E aí, quando eu não tinha condições emocionais para responder algo à altura sem desabar em lágrimas, você ia lá e falava da sua ex ou da bonitona do comercial de cerveja. Nem sei porque eu me estressava, porque bem lá no fundo eu sabia que era só para me contrariar...
Você falava mal das minhas músicas sem conteúdo, das minhas festas lotadas e cheias de suor, das minhas gírias sem sentido – o que eu sempre achei um grande mole. Eu ainda acredito, entretanto, que elas lhe arrancavam umas risadas quando eu virava de costas. Risadas que você não assumia por um único motivo. Adivinha qual? Parabéns, você acertou.
Você também adorava me chamar de fria depois de uma ou outra briga sem fundamento (o que acontecia com uma freqüência enorme e nós adorávamos). Já te disse que depois de um tempo eu deixei de ligar? Pois é, deixei. Eu sabia que era só para me contrariar, até porque você buscava o meu calor na hora de fazer as pazes. E ninguém mistura calor e frio assim, com tamanha facilidade. Ninguém exceto eu.
Você dizia e se contradizia, declarava e contestava, brigava e pedia desculpas, mordia e assoprava. Você me contrariou a cada segundo que compartilhamos, querido. Nenhuma contestação, porém, chegou aos pés da última e derradeira:
― Não vá embora – eu disse.
― Eu tenho que ir – você respondeu.

Deve ser por isso, talvez, que você me conquistou. Deve ser por isso que até hoje eu lembro, e tento esquecer, e superar, e lembrar, e esquecer novamente. Mulheres são assim, afinal: contrariadas e incoerentes dos pés ao coração.
Ah, o coração...


Física? Química? Matemática? Quem liga pra isso, afinal? Tirei o dia para responder os comentários, haha. :P

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Museu de grandes novidades

Cato os registros, as lembranças e as provas do crime imperfeito que ninguém desvendou. Cápsulas dos disparos que um dia me atingiram batem na madeira seca e ecoam em meus ouvidos. Embalagens das balas que um dia adoçaram a minha boca agora enfeitam o fundo do baú e assombram os meus olhos. Junto o sumo, os detalhes se perdem. Eu me perco. Me perco entre memórias e confissões jamais confessadas. Acordo assombrada no meio da noite e aperto os meus olhos tentando enxergar um pouco além da claridade que já não existe mais. Revolta, culpa. Deixo que o remorso me domine enquanto não domino essa minha eterna mania de insistir nesse grande erro que é me agarrar ao passado.

Eu vejo um museu de grandes novidades. O tempo não para.
Ou para?



Final de semana: demorou, mas chegou. A propósito, alguém tem uma sugestão de fantasia simples e que dê para fazer em casa? :)

terça-feira, 5 de maio de 2009

Confissões à ninguém

Ameaço explodir: a pressão é muita, as confissões são tantas e é ao me confessar para um alguém sem rosto e sem nome que eu me descubro. Me descubro e me cubro de sonhos, me perco entre os meus fantasmas translúcidos e me acho em uma Fernanda completamente opaca. Mas será que é mesmo seguro me confessar agora que o sol se foi? Tantos pecados calados, tanta saudade escondida, tantas explosões proibidas... Não sei. Tudo o que sei é que agora machuca. Vejo os meus pedaços pelo chão e tropeço em mim mesma. Tudo o que sei é que agora fere. Corto o pé, a mão, o peito. Sangro, vazo, extravaso, morro. Tudo o que sei é que agora dói. Dói sentir falta de rostos desconhecidos, das vozes jamais escutadas, dos sabores que nunca foram sentidos. Gosto amargo de amor, gosto açucarado de vida, gosto de tudo que ainda virá.
Virá?

E é por isso que eu amo tanto esse mundo: existem aqueles blogs que simplesmente me desvendam quando nem eu mesma posso me desvendar.

domingo, 3 de maio de 2009

Sobra tanta falta


O céu estava exatamente igual ao meu estado emocional: cinzento, instável e prestes a desaguar. Abri a janela recoberta de poeira na esperança de que a brisa morna da noite pudesse tomar o cômodo e acabar com o incômodo da minha mente. Em vão: o gelo que envolvia o meu coração desde o inverno passado continuou intacto e a minha alma continuou a se debater, agonizando de saudade.
Escancarei as portas e janelas, mas o sabor de asfixia continuou a deixar a minha boca quase tão amarga quanto as promessas, dúvidas e dívidas deixadas por você. Desisti. Fui até o jardim e pude ver a primeira gota de chuva cair e tocar com leveza a minha face. Não demorou muito e aquela gotinha foi seguida por outra e mais outra e mais outra. Estava completamente molhada e finalmente podia sentir o vento gélido tocando o meu corpo, porém não sentia frio. Pelo contrário: pela primeira vez em muitos meses estava me sentindo viva. Foi preciso que o céu desabasse em água para que eu desabafasse em lágrimas.
Lágrimas doces, lágrimas salgadas, lágrimas puras, tristes e felizes. Lágrimas. Simplesmente chorei e esqueci de me culpar pelo sorriso que estampava o meu rosto úmido. Desde quando o amor é racional, afinal? Senti cada músculo doer, senti a falta bater. Falta das conversas no meio da noite, das risadas sonolentas durante as madrugadas do final de semana, dos conselhos, das brincadeiras e dos ciúmes bobos... Falta de tudo e de você todo.
Abri os olhos e acordei bem a tempo de ver uma flor multicolorida desabrochar, virar borboleta e voar. Voou, voou, voou. Subiu, subiu, subiu. Subiu tanto que virou estrela, brilhou tanto que virou o anjo que de lá de cima olha por mim.
Acordei bem a tempo de ver que aquilo não era um sonho.

Metade de mim te ama, e a outra metade também. E assim sigo aos pedaços sentindo a sua falta por inteiro.

R.H.C.
Ia colocar o clipe de "O Anjo Mais Velho", mas só tinha vídeos de namorados e tudo o mais. Enfim, mais um texto escrito em uma madrugada chuvosa e saudosa e iluminado pela fraca luz do celular.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Concubina

Não lembro ao certo quando a conheci, mas sei que desde então ela não mais saiu da minha vida. Sempre esteve ao meu lado, me cercando por todas as partes e, como não poderia deixar de ser, após algum tempo passei a absorvê-la, desejá-la. Queria com todas as minhas forças dominá-la, tê-la só para mim. Foi em vão. Ela nunca quis nada sério comigo e, se bem a conheço, não vai querer nunca. E é isso que mais me dói, me revolta: não consigo deixar de amá-la, de necessitar dela assim como necessito do ar que enche os meus pulmões.
Já disse por várias vezes o quanto a amo e dependo dela, o quanto queria ao menos uma única oportunidade para conhecê-la tão bem quanto ela me conhece. Mas ela é paradoxal. Sensível e insensível, ela só quer saber de me usar, me dominar. Logo depois, porém, me ignora e me faz de amante. Amante. E é isso que eu sou no final das contas. Não posso tê-la oficialmente nem assumi-la em público. Tenho que esconder os nossos casos, acasos e romances. Escondo também as crônicas, as fábulas, as cartas, as poesias, as dissertações...
Ela é a Palavra, ela é aquela que me domina, ela é aquela que nunca deixa que eu desvende qualquer um dos seus incontáveis mistérios.


terça-feira, 31 de março de 2009

Brotou de um aborto

Embora não seja capaz de pensar em uma possível solução, assumo que discordo com o método adotado pelas escolas para cobrar dos alunos a produção de textos. Os talentos são, sim, uma exceção à regra, mas idéias, assim como os próprios alunos, precisam amadurecer para que possam atingir o seu ápice.
Como em uma gravidez, o sucesso no desenvolvimento do bebê depende, dentre tantos outros fatores, do tempo que ele se mantêm quentinho e protegido dentro da barriga, apenas esperando pelo momento certo para sair dali e encher a todos de alegrias, tristezas, emoções. Quando ele tem de sair antes da hora, porém, as marcas ficam quase sempre.
Com um texto não é diferente. É preciso deixá-lo de molho, aconchegá-lo dentro da nossa alma e aguardar até que ele se torne inquieto demais para permanecer lá. E é aí que as palavras simplesmente saem e o texto nasce de parto natural: misto de dor e prazer sem bisturis e cicatrizes visíveis - as imperceptíveis sim, essas ficam aos montes reforçando os laços que são criados entre mãe e filho.
Já no parto cesariano tudo muda. A pressão psicológica dos instrumentos cortantes altera o resultado final e sempre deixa aquele gosto amargo na boca e a sensação de trabalho ruim, feito às pressas e que você esqueceu de temperar. Um crescente desgosto toma conta do corpo e demora para ir embora, e, por mais que você deixe essa lembrança jogada em uma canto escuro e empoeirado da memória, a cicatriz fica como um lembrete discreto a te torturar.
Aborto para sobreviver, aborto para não morrer, aborto para expulsar, aborto para dar vida. Esse texto, felizmente, se enrolou no cordão umbilical e, para não morrer, teve de ser abortado imediatamente. Só mais um entre os tantos brotos que brotaram de abortos.