Voa, Gavião. Voa alto e longe. Tão alto que não possam te acorrentar e tão leve e livre que só você mesmo tenha o poder de se deter, de se entregar a alguém e se tomar de si próprio. Voa, mas voa lá onde as armadilhas são única e exclusivamente de tua autoria — e não das que te caçam e não querem te repartir.
Voa, Condor. Voa autoritário e ditador. Tão autoritário que já não se importará com as imposições alheias, nem tampouco deixará que a moral de outrém decida por você o que deves ou não fazer — afinal o veredito imutável é que, embora nem sempre você deva, você sempre pode. Voa, mas voa onde possas enxergar o sol da meia noite com a certeza dos débeis.
Voa, Pavão. Voa vaidoso e viril. Tão vaidoso que inflará o peito e mostrará as tuas penas a cada conquista, esquecendo-te temporariamente do que já lhe foge do campo de visão — a essência pura e sublime. Voa, mas voa com a coragem dos que flertam e com a certeza dos que já tiveram a sua perda decretada.
Voa, Beija-Flor. Voa incansável e delic(i)adamente. Tão incansável que se revitalizará com o banal ato que é tomar as flores com os teus lábios insaciáveis — porém cansados. Voa, mas voa sabendo que a primavera não durará para sempre.
Voa, Fênix. Voa errado e certo — necessariamente nessa ordem. Tão errado que possa se culpar e se culpar e se culpar de novo até que a dor da perda lhe faça aprender e apreender dentro de si a certeza de que voar por voar cansa e de que um porto seguro faz, sim, falta. Voa, mas voa com a maturidade da criança que aceita o erro, vira a página e só então renasce.
Voa, Amor. Voa sujo, torto, promíscuo, displicente. Tão sujo que, quem sabe um dia, se arrependerá de ter voado tanto e por fim decidirá repousar sob o abraço e proteção daquela que daria a vida por você. Voa — e voa o quanto quiser — porque eu sou paciente e ciente da sua sede de liberdade mal educada.
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