"Sou uma mulher madura que às vezes anda de balanço
Sou uma criança insegura que às vezes usa salto alto
Sou uma mulher que balança, sou uma criança que atura."
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sexta-feira, 8 de maio de 2009


Olhei pela janela e pude ver o sol brilhando por detrás da vidraça e uma gaivota voando no céu tranquilo e sem nuvens. À primeira vista, achei que ela estava perdida, mas logo percebi que ela só estava livre. Às vezes a liberdade assusta, não? Espanta e te deixa feito uma criança que se perdeu da mãe e só quer voltar para casa.
Fui arrancada dos meus devaneios pelo barulho estridente da campanhia, o presságio imperfeito do que estava por vir. Era ele. Abri a porta e deixei que aquela imagem inundasse os meus olhos: a mala abarrotada de roupas e lembranças empacotadas às pressas deixava a sua face pálida ainda mais melancólica, quase como um poema inacabado a ser decifrado pela metade.
Gesticulei em direção a sala e só então ele entrou. Em dias normais ele não teria esperado pelo quase convite, pois sabia melhor do que ninguém que estava em casa. Agora, porém, a situação havia mudado. Ele estava de partida e ia se mudar para um lugar que oscilava entre o Até Nunca Mais e o Quem Sabe um Dia. Não disse, mas eu sabia que não voltaríamos a nos ver tão cedo. Já podia começar a sentir a saudade correndo nas minhas veias e foi o que fiz: saboreei a obscuridão da falta.
A verdade é que ele era um grande amigo, quase um irmão. Era? Que grande engano! Usar o pretérito ao falar dele era mentir para mim mesma: ele continuava sendo e eu sabia muito bem que seria para sempre. O que seria de mim agora? Quem iria me apoiar, me ouvir, me fazer rir? Queria gritar à plenos pulmões e depois xingá-lo por estar fazendo aquilo comigo. Se eu fizesse isso ele mudaria a sua decisão? Podia proibí-lo, prendê-lo, mas fui desarmada da maneira mais cruel: a pacífica, quase serena.
- Você nunca poderá me prender ou mandar no meu corpo, irmã. - Só então percebi o quanto sentiria falta do modo como ele me chamava. - A minha alma, entretanto, sempre caminhou ao seu lado e isso não mudará nunca. Lembre-se de mim como um anjo que você não vê, mas pode sentir.
Então, pela primeira vez naquela manhã, eu sorri. Já não sentia mais vontade de aprisioná-lo. Pelo contrário, agora queria libertá-lo de uma vez por todas. Voa, amigo. Voa, irmão. Voa e volta quando quiser. Abracei-o com força pela última vez e o acompanhei até o hall de entrada. Permiti que passasse pela porta aberta e não a fechei mais naquela manhã. Deixei-a escancarada, pois era assim que a porta ficaria para ele: aberta.
Respirei fundo e fechei os olhos por alguns instantes. Decidi que não choraria pela liberdade desnorteada da gaivota. Falando nela, olhei pela janela e vi que a mesma ainda planava lá fora, assim como o sol, que continuava a brilhar e a aquecer os corações gelados. E era isso que me confortava: não importa quão fria e escura esteja a noite, o sol jamais irá te abandonar. Basta apenas que espere pela manhã e veja-o nascer mais forte e belo do que nunca.
Ah, ele volta. Sempre volta.




"Depois de um tempo você aprende a diferença, a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar a alma." (Shakespeare)

domingo, 3 de maio de 2009

Sobra tanta falta


O céu estava exatamente igual ao meu estado emocional: cinzento, instável e prestes a desaguar. Abri a janela recoberta de poeira na esperança de que a brisa morna da noite pudesse tomar o cômodo e acabar com o incômodo da minha mente. Em vão: o gelo que envolvia o meu coração desde o inverno passado continuou intacto e a minha alma continuou a se debater, agonizando de saudade.
Escancarei as portas e janelas, mas o sabor de asfixia continuou a deixar a minha boca quase tão amarga quanto as promessas, dúvidas e dívidas deixadas por você. Desisti. Fui até o jardim e pude ver a primeira gota de chuva cair e tocar com leveza a minha face. Não demorou muito e aquela gotinha foi seguida por outra e mais outra e mais outra. Estava completamente molhada e finalmente podia sentir o vento gélido tocando o meu corpo, porém não sentia frio. Pelo contrário: pela primeira vez em muitos meses estava me sentindo viva. Foi preciso que o céu desabasse em água para que eu desabafasse em lágrimas.
Lágrimas doces, lágrimas salgadas, lágrimas puras, tristes e felizes. Lágrimas. Simplesmente chorei e esqueci de me culpar pelo sorriso que estampava o meu rosto úmido. Desde quando o amor é racional, afinal? Senti cada músculo doer, senti a falta bater. Falta das conversas no meio da noite, das risadas sonolentas durante as madrugadas do final de semana, dos conselhos, das brincadeiras e dos ciúmes bobos... Falta de tudo e de você todo.
Abri os olhos e acordei bem a tempo de ver uma flor multicolorida desabrochar, virar borboleta e voar. Voou, voou, voou. Subiu, subiu, subiu. Subiu tanto que virou estrela, brilhou tanto que virou o anjo que de lá de cima olha por mim.
Acordei bem a tempo de ver que aquilo não era um sonho.

Metade de mim te ama, e a outra metade também. E assim sigo aos pedaços sentindo a sua falta por inteiro.

R.H.C.
Ia colocar o clipe de "O Anjo Mais Velho", mas só tinha vídeos de namorados e tudo o mais. Enfim, mais um texto escrito em uma madrugada chuvosa e saudosa e iluminado pela fraca luz do celular.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Achados e Perdidos


A grande lona colorida havia sido armada cuidadosamente dias antes da grande estreia por aqueles que ali trabalhavam. O local, antes vazio e sem brilho, começava a ganhar vida com as crianças que corriam alegres acompanhadas pelos seus pais. Enquanto as arquibancadas do circo começavam a encher, do lado de fora uma jovem moça anunciava o espetáculo e gesticulava com empolgação para a bilheteria:
- Venham, venham todos! Só aqui no nosso circo terão a oportunidade de conhecer o melhor e mais poderoso mágico da história da humanidade! Comprem já os seus bilhetes!
Não demorou muito para que os ingressos esgotassem e o público se acomodasse nas poltronas. Percebendo a excitação que pairava pelo ar, o apresentador, um homem robusto e vestido elegantemente em um terno bem recortado, iniciou o espetáculo.
- Respeitável público, é com um enorme prazer que o Circo da Vida apresenta-lhes o melhor e mais poderoso mágico da história da humanidade. O único capaz de transformar cada um de vocês! Vamos aplaudi-lo!
A tenda se encheu com a ovação da platéia que só se calou quando o formidável mágico tomou o seu lugar no picadeiro. Era um senhor de idade marcado por rugas e que trajava uma roupa simples e absolutamente comum. Tinha uma postura péssima, como se carregasse um peso de muitos e muitos anos de experiência nas costas – de fato o fazia - e, no lugar dos tradicionais coelhos, varinhas e cartolas, trazia consigo um grande relógio de bolso.
Um burburinho de desaprovação fez-se audível e logo já era possível identificar perguntas como “cadê a cartola?” e comentários cheios de ceticismo – “isso é uma grande piada...”. O senhor, por sua vez, mais sábio do que qualquer outro mortal presente no local, pouco se importou. O murmúrio continuou crescendo até que uma criancinha, no auge da sua inocência, disse em voz alta:
- Eu não vou mudar nunca. Ninguém é capaz de me transformar!
- Oh, minha pobre garotinha, sinto-lhe informar, mas vai sim. – Iniciou o mágico e a sua voz serena e cheia de sabedoria tomou a atenção de todos. - Sabe esse teu sonho de construir uma casinha na árvore do sítio da família? Pois é, você nem lembrará dele daqui a 15 anos.
- Nunca! A casinha da árvore é tudo o que eu mais quero, senhor mágico.
- Eu sei, eu sei. Em breve, o quero terá virado queria, jovem. E sabe esse teu sonho de mudar o mundo e de nunca ser como os adultos, sempre ocupados demais para dar valor àquelas coisas que realmente merecem ser valorizadas? Pois é. Você também esquecerá disso daqui a uma ou duas décadas e acabará se rendendo à uma rotina estressante. O que você acha certo hoje, e devo admitir que realmente é, acabará se tornando o desperdício de tempo de amanhã. A vida é assim, pequena menina. E todos aqui sabem disso...
O mágico fez uma breve pausa e continuou depois de ter recuperado o fôlego.
- Suas prioridades e princípios acabarão mudando e os seus sonhos se perderão no caminho em direção a um mundo onde sonhar não é mais permitido. E, acredite, sou quem vou realizar cada uma dessas transformações. Apenas dê tempo ao Tempo.
Quando o homem terminou de falar, homens e mulheres aplaudiram-no de pé. Eles já tinham vivido o bastante para saber que o mágico estava certo. As crianças, porém, continuaram sentadas, digerindo em vão aquelas palavras que até então não tinham sentido algum.

(...)


O colorido da lona, agora desbotada, havia se perdido durante os quase vinte anos, mas parecia que ainda ontem ela estivera ali com os seus pais para assistir ao espetáculo inaugural do melhor circo que conhecera. A imagem do vestido rosa, do sapatinho boneca e das fitinhas coloridas que enfeitavam o seu cabelo na ocasião ainda estavam incrivelmente nítidas em sua memória. O sonho da casinha na árvore, porém, não.
A mulher checou o relógio de pulso. Tinha pouco tempo e logo teria que voltar à vida adulta. Desde quando ela começara a se importar com isso? Desde quando o trabalho se tornara mais importante do que a magia de um bom circo? Olhou para um lado e depois para o outro vasculhando e absorvendo cada detalhe da paisagem. Não demorou muito para que encontrasse o que estava procurando: em uma placa de madeira podia-se ler, ainda que com um pouco de dificuldade, a inscrição “Achados e Perdidos” e a seta que apontava para uma cabana singela. Empurrou com um pouco de dificuldade a porta de madeira e logo pôde ter uma imagem quase completa do senhor que descansava em uma cadeira de balanço por detrás do balcão.
- Olá. Estou à procura de algo que perdi há algum tempo.
- Quanto tempo? - o senhor respondeu, despertando do seu transe momentâneo.
- Bom, acho que já faz quase vinte anos.
- Sinto muito, senhora. Limpamos as nossas estantes a cada década. Lamento.
Cabisbaixa, a mulher agradeceu e deixou o local. Só agora ela podia compreender todo o poder e sabedoria daquele velho mágico que, se não lhe falhava a memória, chamava-se Tempo. Mas agora era tarde demais para recuperar os sonhos que havia perdido pela vida a fora.

•••

Ficou maior do que deveria, né? E olhe que eu ainda cortei o malabarista, o palhaço e mais alguns personagens... Enfim, só espero que não tenha ficado cansativo demais.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Desperta dor

O céu já começava a se colorir em um tom que ela jamais seria capaz de descrever com precisão. Vermelho, amarelo, laranja e roxo. As cores se misturavam e pincelavam o pôr-do-sol com tamanha harmonia que até os mais consagrados pintores se impressionariam diante de tanto esplendor. As dunas alvas como algodão passeavam apressadas a cada vento mais forte e davam aos coqueirais, que também acompanhavam o seu passeio despretensioso, ainda mais beleza. Enquanto isso, o mar calmo descansava sobre o balanço envolvente das ondas e dava à cena a trilha sonora perfeita cada vez que tocava a praia.
Talvez o cenário paradisíaco fosse o suficiente para absorver por completo a atenção de qualquer mortal, mas para ela existia algo ainda mais perturbador ali. Lá de longe, sentado sobre a areia e iluminado pelos últimos raios de sol daquele dia, ele descansava quase tão tranquilo quanto o mar. Os cabelos negros e lisos, agora despenteados pelo mesmo vento que tocava o rosto da garota, contrastavam com a pele clara que também dava ainda mais vida aos olhos castanhos que já seriam suficientemente expressivos sozinhos. O sorriso acolhedor estampava o seu rosto mesmo quando não havia absolutamente graça alguma a não ser a que ele próprio emitia. Emitia e a atingia em cheio, bem lá no peito. Ela negava pra si mesma, mas bem lá no fundo sabia o nome daquilo: ela estava apaixonada.
A milhas e milhas de distância, porém, era uma trilha sonora bem diferente daquela que começava a chamar a atenção da menina. O barulho incômodo e constante do despertador a acordara, fazendo-a despertar do sonho que já havia se tornado parte da sua rotina, parte das suas ilusões... E era assim todas as noites. O despertador tocava apenas para trazê-la de volta a sua realidade cruel. Bom trabalho, despertador. Vai lá e desperta dor em mais uma alma aflita que desconhece o seu amado.


Para Larinha, que pediu a descrição do "homem dos sonhos".


(...)