— Por que você tá assim, mô? Tão distante, tão fria.
(Porque, por mais que a minha consciência pese e grite diariamente o quanto é errado continuar fazendo isso, eu não consigo fitar os teus olhos e não compará-los aos lânguidos olhos dele, que ainda me parecem tão mais cheios de brilho e de mistérios na profundidade daquele tom inexplicavelmente negro. Porque, por mais que eu saiba que não devo procurar em você fragmentos que eram exclusivamente dele, é impossível deixar de notar que o sorriso do outro era mais largo e, embora os dentes não fossem tão alinhados quanto os seus, tinha uma beleza única que me enchia com a idéia ilusória de que o amanhã seria ainda mais bonito que o agora. Porque, por mais que eu me sinta um lixo por te comparar e, o que é ainda mais cruel, te rebaixar à posição de segundo colocado sempre, é inevitável pegar o telefone, discar os números da casa dele e só então perceber que liguei errado – ainda que eu possa, eu já não devo contar os pequenos detalhes do meu dia para ele e dizer, ao encerrar a ligação, o quanto me sinto sortuda por namorar o meu melhor amigo. Porque, por mais doloroso que seja (principalmente para mim), é involuntário me pegar pensando cheia de saudosismo nos dias de TPM em que ele vinha me ver e eu esquecia do mundo ao afundar o rosto no seu peito. Porque, amor, por mais injusto que isso seja para você, para nós, ainda não sou capaz de controlar a minha vontade de fugir para longe em meus devaneios. Fugir para um lugar onde exista apenas ele e eu e nada mais. Um lugar onde eu finalmente possa juntar ao presente tudo o que já ficou para trás e, por fim, chamar de amor quem eu realmente (ainda) amo.)
— Eu? Que bobagem, amor! É impressão sua, Di... Vem cá, vem.
— Eu? Que bobagem, amor! É impressão sua, Di... Vem cá, vem.



